sexta-feira, 9 de maio de 2014

Notícias

CCBB de São Paulo apresenta exposição de retrospectiva de Iberê Camargo

Curador Luiz Camillo Osorio reuniu mais de 140 obras de diversas coleções do país apresentando diferentes fases do artista nos quatro andares do prédio, com destaque para a fase trágica e derradeira do artista nos anos 1990

08/05/2014 | 06h02



Na retrospectiva do CCBB de São Paulo, há um andar dedicado às telas monumentais da fase trágica e final de Iberê Foto: Elvira T. Fortuna / Divulgação
A exposição "Um Trágico nos Trópicos", em cartaz até julho no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo, apresenta mais de 140 obras de Iberê Camargo de coleções e acervos diversos. Percorrendo as galerias do antigo prédio do banco no centro paulistano, por cujas paredes há pouco passaram impressionistas e renascentistas, é possível acompanhar o decorrer das fases do artista gaúcho.
São quatro andares de Iberê, mas é a pequena sala do terceiro piso que arrebata o visitante. Há apenas seis trabalhos, mas estão ali as monumentais telas das derradeiras séries "As Idiotas", "No Vento e na Terra", "Crepúsculo na Boca do Monte" (todas de 1991) e "Tudo Te É Falso e Inútil" (1992). Reunidas e confrontadas, essas pinturas, habitadas por figuras fantasmagóricas e dotadas de forte carga sombria, parecem emparedar e lançar o espectador para dentro daquelas paisagens desoladoras. O conjunto forma, nas palavras do curador Luiz Camillo Osorio, uma síntese do drama melancólico de Iberê.
– É o apogeu do trágico – conta Osorio, caminhando pela montagem da exposição na véspera da abertura. – Essa fase final de Iberê sintetiza o que chamo de dimensão trágica e resume a coerência interna na obra dele. É quando a escala da pintura é exponencializada, e a temática se volta ao embate com a finitude, a proximidade da morte.
 



No quarto andar do CCBB, há uma pequena retrospectiva que situa os temas do artista – as paisagens dos anos 1940, as naturezas-mortas dos anos 50, os carretéis e a abstração dos anos 60 e 70 e os ciclistas e as idiotas dos anos 80 e 90. O segundo piso amplia o período dos carretéis, mostrando como eles explodiram na decorrente fase abstrata e como depois retomaram certa ordem figurativa. O destaque é a série soturna em que Iberê aboliu a cor e com a qual ganhou o prêmio de pintura na Bienal de SP de 1961.
Já no primeiro andar, em torno do cofre onde estão matrizes de gravuras, é possível descortinar um pouco a mitologia alimentada a respeito de Iberê. Esboços e estudos com indicações de cor e composição anotadas a lápis deixam claro que Iberê não era um artista totalmente dado ao acaso. Havia algum planejamento, um pensamento anterior às figuras que depois o artista construiria na tela em uma quase performance, marcada por gestos espontâneos e acúmulo e retirada de grandes camadas de tinta, no seu processo experimental de construir e desconstruir a imagem.